quarta-feira, 18 de maio de 2016

Entrevista com MC Vasto




Vitor Tronbin representando o blog  SoundPlace em entrevista feita com Tiago do Vale, MC Vasto, no dia 26/03/2015
      
P -     Qual sua concepção de zona norte? O que é ser zona norte para você, esse conceito que e demonstrado em tantas musicas e grupos de regiões diferentes no contexto do rap.

R - Olha cara, boa tarde primeiramente. Zona norte é um lugar que sempre me mostrou o porque que eu posso estar aqui, entendeu ? Eu já sofri coisas na minha vida que me fizeram mudar de região, ir pra zona sul, Contagem, mas no final eu me encontro na zona norte e orgulho a zona norte. Aqui tem vários locais de rap que você pode mostrar seu trabalho. A primeira musica que cantei na minha vida foi na zona norte, foi em um espaço adquirido no Parque Lagoa do Nado e tem vários locais aqui perto que você pode aprimorar seu talento.

Ser zona norte é mostrar que nos não estamos disputando região. Eu tenho uma crew que chama GBH e, por exemplo, quando perguntam meu vulgo, que é vasto,  perguntam também de onde que você é? A resposta é que eu sou da zona norte primeiramente entendeu ? Mas eu criei com o intuito de unir todas as quebradas. GBH quer dizer da grande BH, é tudo unido, não ser só zona norte, sul, leste e oeste.

P – O que você acha da cena do rap em belo horizonte?

R - A cena em BH, por um lado e difícil por outro e fácil, mas tudo nessa vida você tem que adquirir com esforço. Eu, primeiramente, fui pesquisar em minha cidade o que tinha de rap antes de começar pelo menos curtir. Em 2009 eu comecei a frequentar um rap que chama Duelo de Mcs, tá ligado? Em 2007, 2008 começaram os eventos na estação central. Em um dia a polícia não gostou e colocou todo mundo para andar, estava chuvoso e começou a rolar debaixo do viaduto. Debaixo do viaduto rolou a cena, e eu demorei muitos anos pra tirar vergonha e encarar quem esta lá em cima pra duelar comigo. Isso abriu muitas portas pra mim em BH, de poder botar a cara, de ter instrumento e dos integrantes do evento fazerem isso uma família de rua mesmo, essa e a cena em belo horizonte.
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3    P -      De onde vem sua revolta mostrada em algumas de suas músicas ?

R - A revolta vem de mim mesmo,dos seres humanos existindo. O mundo está acabando, até em uma letra que eu fiz falo que eu fico muito bolado de saber que a próxima geração muito não vai ver, em todos os lugares que a gente foi para conhecer, do anoitecer até o amanhecer. E o que a gente pode fazer para mudar? Não tem muita coisa para fazer pra mudar, mas a minha parte é a própria arte, a terra vai acabar e nos vamos pra onde? Nos vamos pra marte ? E difícil, por isso que vem muita revolta de algumas musicas.

 P - O que e a pichação para você ? 

 R - Pichação? E a descriminalização. Todo mundo vê como depredação, até eu vejo. Tem muita gente que pega casa, é muito pico entendeu?  É muita agenda que o povo pega, ou eu mesmo. Eu picho por que eu acho minha forma de revolta sem escolta, porque não tem escolta, o que você tem e um amigo que picha junto com você e pode rodar junto com você. Você planeja aonde você quer transmitir fraqueza.O sistema esta forte e eu quero que ele enfraqueça. Quem manda e o povo, eu não mando pichando, mas eu estou fazendo minha parte. É um vício também, sou viciado em pichação e sei que é muito errado. Eu evito pichar casa, eu picho patrimônio publico. Eu pretendo atingir o sistema não os moradores.

P – Porque do vulgo Vasto? Quais são os ideais atrás desse vulgo?

R - Eu criei a partir do momento em que eu tinha outro vulgo. Eu assinava sad, de triste, tinha outro cara que assinava mas não existe dois, né? Eu gosto muito de escrever, mas o único livro que eu gosto é o dicionário, então eu vi a palavra vasto no dicionário e  achei muito relacionada comigo. Eu via no jornal “ tal chuva devastou a cidade” e pensei, picho também devasta a cidade, vasto de devastação, de expansão e grande.

P - Você acha que há falta de espaço para os Mcs em belo horizonte? Nesses últimos tempos a cena do rap tem valorizado os grupos?

R - Tem valorizado pois as batalhas de Mcs influenciam muito, quem quiser botar a cara, bota. Mas tem gente que se sente oprimida por causa de grupos que são individualistas, O certo era todo mundo permanecer unido.

P - Quais foram as maiores dificuldades que você já passou ate hoje pelo rap?

R - Dificuldade é de sobrar dinheiro do trabalho pra você  comprar sua batida, masterizar, divulgar , pra você prosseguir. Isso é muito difícil, a gente tem muita coisa pra pagar e para adquirir.As batidas queira ou não para um jovem que não tem muito apoio fica difícil, mas eu vejo que isso não e motivo pra gente não trabalhar.

P -  Você sempre foi independente para divulgar seus trabalhos, utilizando na maioria das vezes vídeos caseiros e freestyles no facebook. Você acha isso importante?

R - Eu quero fazer rap, e quero mostrar o mais cedo possível. Como eu não tinha muito incentivo e apoio eu achei o facebook como uma maneira rápida e fácil de mostrar meu trabalho. Meus amigos vão ver e compartilhar. Eu comecei a criar vídeos e postar no youtube do meu celular mesmo , trabalho caseiro, comecei a divulgar letras. Eu acho isso importante por que você está se mostrando vivo,a partir do momento em que você escreve você vai eternizar, mas a partir do momento que você escreve e apresenta, ai você sustenta.

P  – Quais grupos ou Mcs você mais se inspira ?

R - Eu me inspiro muito no " Douglas Din ", Douglas Nascimento, muito visto no viaduto Santa Tereza. Lá no viaduto eu vi muitos Mcs mas ele foi o que mais se destacou. O cara cresceu, fez batalha de rap, conseguiu ganhar dois duelos nacionais, o encontro de duelos do Brasil inteiro, e durante isso ele criou musicas, tracks. Não é questão de imitar, é influencia, você tem que ter influencia de coisa boa, ele fez coisas boas debaixo do viaduto, eu vou seguir de um jeito bom, criativo e produtivo.

P – Qual sua sensação na primeira vez que subiu no palco para uma batalha ?

R - Na primeira vez eu senti necessidade de pelo menos mostrar o que eu tinha para falar. Como até hoje eu subo na batalha e não consigo pensar em nada, parece que é o clima da rima na hora, você não consegue se concentrar em pensar na rima que você guardou. Não existe isso, de tanto que você está nervoso e ansioso, você fica periculoso ao mandar sua rima na hora. Muitas das vezes você pode se sair bem, mas tem que se preocupar em não ofender ninguém. E ir muito além disso, procurar não ter vergonha, arrumar um jeito de se interagir.

P - Qual sua sensação ao subir ao palco agora? Seja para uma batalha ou para uma apresentação;

R - A sensação que eu tenho não é desgastada. Tem muito tempo que eu subi e as pessoas acham que você não vai ter a mesma sensação, mas você tem agora sensação de domínio sobre a parada, o recado que você quer mandar e nada vai te impedir, e a sensação e muito boa e gratificante.
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